Tráfico negreiro e sua relação com o acúmulo de capital

Denis Antônio Caetano

 Comentar sobre a história da escravidão no Brasil, bem como ocorrera esse processo, suas consequências e seus efeitos, nos leva a fazer uma reflexão sucinta a respeito da relação desse processo com acúmulo de capital no período colonial brasileiro. Isso nos faz concluir de imediato a importância do tráfico negreiro para o desenvolvimento econômico da Colônia, sabendo que além dessa contribuição não se pode descartar o papel de destaque dos mesmos (negros africanos) na formação da identidade brasileira.

Ao se falar em escravidão, é difícil não pensar nos portugueses, espanhóis e ingleses que superlotavam os porões de seus navios de negros africanos, colocando-os a venda por toda a região da América. É difícil não lembrar dos capitães-de-mato que perseguiam os negros que haviam fugido no Brasil, dos Palmares, da dedicação e ideias defendidas pelos abolicionistas, e de muitos outros fatos ligados a este assunto.

Apesar de todas estas citações, a escravidão é bem mais antiga do que o tráfico do povo africano. Ela vem desde os primórdios da história, quando os povos vencidos em batalhas eram escravizados por seus conquistadores. Muitas civilizações usaram e dependeram do trabalho escravo para a execução de tarefas mais pesadas e rudimentares.

Para que possamos compreender melhor como funcionava o sistema escravista no Brasil, torna-se necessário que busquemos na colonização portuguesa o seu princípio, pois quando os portugueses começaram a colonização do Brasil, não existia mão-de-obra para a realização de trabalhos manuais. Por isso, iniciou-se a exploração da mão-de-obra indígena. Mas os jesuítas, por considerarem os índios puros e sem malícia, os defenderam da escravidão. Assim, os portugueses foram à busca de negros na África para submetê-los ao trabalho escravo.

No Brasil, a escravidão começou na primeira metade do século XVI, com a produção de açúcar. Os portugueses traziam os negros africanos de suas colônias na África para utilizar como mão-de-obra escrava nos engenhos de açúcar do Nordeste. Os comerciantes de escravos portugueses vendiam os africanos como se fossem mercadorias no Brasil. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro daqueles mais fracos ou velhos.

O transporte era feito da África para o Brasil nos porões de navios negreiros. Amontoados, em condições desumanas, muitos morriam antes de chegar no final da viagem, e seus corpos eram lançados ao mar.

Nas fazendas de açúcar ou nas minas de ouro (a partir do século XVIII), os escravos eram tratados da pior forma possível. Trabalhavam muito (de sol a sol), recebendo apenas trapos de roupa e uma alimentação de péssima qualidade. Passavam as noites nas senzalas (galpões escuros, úmidos e com pouca higiene) acorrentados para evitar fugas. Eram constantemente castigados fisicamente, sendo que o açoite era a punição mais comum no Brasil Colônia.

Eram proibidos de praticar sua religião de origem africana ou de realizar suas festas e rituais africanos. Tinham que seguir a religião católica, imposta pelos senhores de engenho, adotar a língua portuguesa na comunicação. Mesmo com todas as imposições e restrições, não deixaram a cultura africana se apagar. Escondidos, realizavam seus rituais, praticavam suas festas, mantiveram suas representações artísticas e até desenvolveram uma forma de luta: a capoeira.

As mulheres negras também sofreram muito com a escravidão, embora os senhores de engenho utilizassem esta mão-de-obra, principalmente, para trabalhos domésticos. Cozinheiras, arrumadeiras e até mesmo amas de leite foram comuns naqueles tempos da colônia.

O negro também reagiu à escravidão, buscando uma vida digna. Foram comuns as revoltas nas fazendas em que grupos de escravos fugiam, formando nas florestas os famosos quilombos – comunidades bem organizadas onde os integrantes viviam em liberdade, através de uma organização comunitária aos moldes do que existia na África. Nos quilombos, podiam praticar sua cultura, falar sua língua e exercer seus rituais religiosos. O mais famoso foi o Quilombo de Palmares, comandado por Zumbi.

Dando seguimento, podemos demonstrar, como era tão “delicada” a condição do transporte de escravos no “auge” do tráfico negreiro realizado principalmente pelos portugueses nos séculos XVI e XVII. Assim sendo, podemos obter uma melhor visão de como era feita a divisão dos escravos dentro dos navios, se havia tratamento diferenciado para mulheres, crianças e homens. Para tanto, torna-se necessária a compreensão do processo de elaboração das embarcações.

É interessante saber que muitas das embarcações que transportaram escravos advindos da África, serviram, em ocasiões anteriores, para transportar produtos da Índia, pois não podemos deixar de lado a forte cobiça dos portugueses pelas riquezas das especiarias que havia naquela região. Esta situação revela duas informações: a de que estes navios já não contava com um estado de conservação regular a ponto de oferecer a todos os tripulantes algum tipo de segurança durante as longas viagens; e que Portugal não reunia condições financeiras suficientes para empregar na aquisição de navios novos e mais bem equipados. Estas embarcações já haviam enfrentado longas viagens em busca das riquezas indianas.

O que percebemos também, é o ligeiro aumento na ousadia das embarcações, sempre com objetivo de aumentar em tamanho, consequentemente em capacidade de carga. Por outro lado, estes avanços e esta coragem, revela um ponto negativo, pois devido ao aumento do tamanho dos navios vêm junto a dificuldade de controlá-los em curso, há também perda de velocidade, pois o peso aumenta consideravelmente.

Com isso, os grandes veleiros da época passaram a alojar homens, mulheres e crianças em distintos patamares. Assim, na seção inferior do navio, ficavam os moleques, os rapazes e os machos adultos; no repartimento intermediário, as mulheres, e no superior, em divisões apartadas, as grávidas e as crianças menores. Os espaços restantes, anexos aos costados da proa e da popa, eram reservados exclusivamente para as sentinas e para as utilidades, respectivamente. Guardas, em todos os casos, vigiavam durante a noite, impondo a disciplina. Sabe-se igualmente, que os cativos viajavam assentados em filas paralelas, de uma à outra extremidade de cada cobertura, cabeça sobre o colo dos que os seguiam imediatamente.
Os escravos que abasteciam o Brasil eram controlados de acordo com a necessidade, com a demanda. Diante de enorme necessidade os navios eram abastecidos com o dobro de sua capacidade real. Para eles não importava se morressem alguns dos escravos, isto era até algo normal, mas se as perdas fossem superiores a 30% os pensamentos eram outros.

Podemos dizer que o assunto é mais grave, pois sabemos que depois deste triste e sofrido episódio das longas viagens que estes tristes nativos tinham de enfrentar, havia ainda o árduo cotidiano do trabalho escravo já em terra firme. Os escravos eram açoitados constantemente.

A questão do transporte de escravos certamente não deixa dúvidas de que ocorrera de maneira deplorável. As condições eram alteradas de acordo com a ambição de mercadores, de contratadores, acompanhado pela busca do lucro imediato e constante destes mesmos mercadores, contratadores, enfim, de todos os traficantes. Pois o tráfico negreiro foi acima de tudo, um negócio extremamente lucrativo. Isto ilustra melhor a ganância de querer enviar e carregar o maior número de escravos numa mesma embarcação.

Percebe-se assim o verdadeiro descaso com os escravos africanos, que eram acima de tudo “pessoas, humanos com culturas e vidas próprias”. Os traficantes certamente não pararam para pensar que em suas enormes embarcações carregavam um amontoado de culturas, sonhos de vários povos, diferentes em sua maioria, mas com um ideal comum: o direito à vida, ou melhor, à “liberdade” de viver. E é nessa tese, que não podemos deixar de ressaltar a importância dessas manifestações culturais trazidas pelos nossos “irmãos” africanos no período escravista, visto que, as mesmas tornaram “peças centrais” na formação da identidade miscigênica do povo brasileiro.

As origens (suas raízes) da cultura material e não-material afro-brasileira está associada (como dito antes) ao tráfico de escravos africanos trazidos para o Brasil do século XVI até meados do século XIX.

Os negros contribuíram para a cultura brasileira com uma enormidade de elementos: na dança, música, religião, culinária e no idioma. Essa influência se faz notar em grande parte do País, em certas porções (nomeadamente em estados do Nordeste como Bahia e Maranhão) a cultura afro-brasileira é bastante notória.

A cultura africana chegou através dos povos escravizados trazidos para o Brasil em um longo período que durou de 1550 à 1850. A diversidade cultural africana refletiu na diversidade trazida pelos escravos, sendo eles pertencentes a diversas etnias, falando idiomas diferentes e de tradições distintas. Assim como a indígena, a cultura africana fora subjugada pelos colonizadores, sendo os escravos batizados antes de chegarem ao Brasil. Na colônia, aprendiam o português e eram batizados com nomes portugueses e obrigados a se converter ao catolicismo. Alguns grupos, como os escravos das etnias hauçá e malê, de religião islâmica, já traziam uma herança cultural e sabiam escrever em árabe. Os bantos, nagô e jejes eram monoteístas constituindo os candomblés que são uma reprodução das aldeias africanas.

Mesmos dispersos no território brasileiro e por vezes misturados para não se rebelarem (fazendo jus ao ditado “dividir para reinar”) retiveram uma parte de sua cultura original para conservar sua identidade de grupo dominado. Por vezes, esta identidade constituiu um fator importante para resistir à escravidão.

Algumas formas de organização permaneceram ou pelo menos conservaram uma certa identidade com as suas raízes africanas. Foi o caso das religiões denominadas afro-brasileiras, como o candomblé nagô, angola-congo, jeje-mina, ritos diversos do que se convencionou chamar de “nações” conforme suas origens étnicas na África. Por vezes, sincretizaram com outras religiões como com o kardecismo, no caso da umbanda. Mesmo quando grupo de escravos se converteram ao catolicismo e adotaram de devoção a santos padroeiros e protetores de negros como São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário, como nas congadas, moçambiques ou cabindas mantiveram danças, ritmos, tambores e outros símbolos e mesmo uma certa dimensão do culto dos ancestrais.

Isto posto, é importante frisar que esses são aspectos de uma história cultural que deve ser preservada e conhecida pelo presente.Assim, podemos enfocar que esse processo de escravidão ocorrido no Brasil, foi vivenciado num cenário econômico baseado no tripé: monocultura, latifúndio e ela própria (escravidão). Assim sendo, não só favoreceu o desenvolvimento econômico do Brasil Colônia, como foi o fator principal de “acúmulo de capital”, onde o negro era visto como “mercadoria” de compra e venda de valor variante, e com um objetivo: o de conseguir lucros.

É fato também, que nesse período a economia brasileira dependia quase que exclusivamente da mão-de-obra escrava, tornando a escravidão fator de destaque nesse cenário da História Brasileira. Visto que, o poder hegemônico da época era baseado principalmente na quantidade de terras e de escravos que obtinha uma determinada pessoa.

Em síntese, a escravidão foi além do que podemos imaginar, suas consequências foram drásticas para os negros escravos, pois estes sentiram na pele o descaso de povos que se julgavam “superiores” a eles, além de serem forçados a abandonarem suas terras, famílias, cultura, vida…

É papel do historiador mostrar em primeiro lugar, a importância dos africanos no processo de formação do Brasil. Não se deve, de alguma maneira, enfocá-los apenas como escravos coadjuvantes dos poderosos proprietários, mas como cidadãos de um país que ainda no presente convive com as barreiras trágicas desse vergonhoso preconceito (herança advinda desse período da nossa história), visto que o mesmo precisa rapidamente ser quebrado e dado à cultura afro o seu verdadeiro valor, valor esse, que está diretamente relacionado com a nossa história, ou melhor, com a História do Brasil.

Referências:

ANASTASIA, Carla. Encontros com a História/ Carla Anastasia, Vanise Ribeiro—Curitiba: Positivo, 2006.

RAIZES AFRICANAS. Disponível em: <http:// http://www.bibivirt.futuro.usp.br/mae/mae-raizes.html>. Acesso em: 5 de março de 2006.

SALVDOR, José Gonçalves- Os Magnatas do Tráfico Negreiro/ José Gonçalves Salvador—São Paulo: Ed. Pioneira/ Edusp- 1981.

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