O desenvolvimento da historiografia e a função social da história

Denis Antônio Caetano

                   Para que se possa entender melhor o ser humano, é necessário e fundamental o estudo concreto dos fatos e ações, ideologia do mesmo e o principal (diga-se de passagem) seu comportamento em grupo, ou melhor, seu desenvolvimento na sociedade em que vive. Com essas convicções citadas, pode-se definir um conceito perene de historiografia, como sendo o estudo da história humana, realizados por diferentes indivíduos e grupos sociais, no decurso do tempo (historiadores). Porém sabe-se que para se chegar a uma visão mais clara a historiografia passou por diferentes etapas ao longo de toda história da humanidade, etapa essas que se divergem muito na reflexão dos fatos humanos, por ai se percebe que o conhecimento de historiografia é importante, ou melhor, é essencial que se tenha um conhecimento dos pensamentos dos homens no decurso do tempo, antes de fazer um prejulgamento dos mesmos. Com os historiadores acontece algo semelhante, eles na maioria das vezes relatam algum fato acontecido de comum acordo com suas convicções ou da sociedade de sua época.

                 É importante ressaltar que o desenvolvimento da historiografia depende sempre dos valores de cada época, das preocupações, dos problemas, das condições materiais, dos choques políticos, dos valores culturais, das construções que acontecem conforme a maneira de viver e de pensar e, evidentemente, das indagações que historiadores, outros estudiosos e leigos fazem a partir desse sempre complexo quadro social.

               Partindo da tese de que a historiografia tem características próprias de sua época e, da maneira de interpretar os fatos de cada historiador, pode-se dizer que os relatos históricos nem sempre foram dominados por toda sociedade e, que na maioria das vezes para maior parte da população a transmissão da história era feita oralmente, fato que possibilitava uma interpretação própria para todos.

                 Ao analisar o passado historiográfico, pode-se ressaltar que na antiguidade a história era praticamente reduzida aos acontecimentos históricos das classes dominantes da época. Essa ênfase de tratar a história fazia do cidadão comum, como escravos, trabalhadores, pessoas simples… indivíduos a-históricos.

               Outro fator relevante dessa época diz respeito às causas dos fatos que eram sempre voltados para as pessoas, onde os registros quase que sempre eram os testemunhos pessoais, poucos registros escritos, geralmente ligados às camadas mais altas da sociedade.

                    Já no período medieval, a historiografia centralizava seus estudos em meio a uma época onde pairavam o impacto do cristianismo com a historiografia greco-romana. Nesse período as ideologias historiográficas variavam, dependendo das teses dos historiadores, que divergiam suas opiniões a favor de ambas as historiografias.

               A partir do século XV começa a surgir na Europa ideais modernistas que de maneira direta afetaram a historiografia da época. Pode-se dizer também que nesse período a história deixa de lado a ênfase dos detalhes de governantes, e de seus reinados, da aristocracia, de até então, par vigorar os ideais de pensadores que lutavam pela emancipação dos homens na sociedade, utilizando de algo cabível somente a sua espécie: a razão. Nesse período da historiografia, os pensadores da época voltavam seus estudos para a libertação do homem em sua totalidade, porém a história ainda era tida como disciplina voltada predominantemente para a educação aristocrata e burguesa, isso dificultava o acesso da disciplina para as camadas mais pobres da sociedade. Em meio a essa divergência e afastamento de classes sociais da época nasce o materialismo histórico: uma concepção de historia ligada à prática revolucionaria para mudar o presente. Segundo Marx, a historia da humanidade seria formada a partir da luta de classe: “a história de todas as sociedades que existiram até os nossos dias tem sido a história da luta de classes (…) uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionaria da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em lutas “ (MARX; ENGELS, 1848).

                  É de extrema importância salientar também, que mesmo em meio às concepções das teses modernistas citados anteriormente, surgem mais tarde propostas que enfatizavam uma historiografia voltada para ideias de uma história cientifica, que aspirava apenas no estudo de documentos escritos e, nada mais além do que seus escritos pressupunhavam. Essas propostas ficaram conhecidas como “Escola Metódica” ou “Positivista”. Isto posto cabe pensar no seguinte: “a historiografia então passava por um processo de retrocesso de ideias”, processo esse que deixava de lado a ênfase à luta existente entre as classes sociais da época, para centralizar seus estudos apenas nos documentos escritos disponíveis.

          Um detalhe importante nesta época de revoluções historiográficas foi o papel de historiadores como os franceses Marc Bloch e Lucien Febvre, ambos direcionaram seus estudos com uma forte oposição a história tradicional formando um grupo de historiadores conhecido como grupo dos Annales, que revolucionaram a historiografia mundial, centralizando os estudos historiográficos em: aberturas de pesquisas em todo tipo de documentos disponíveis; focalizando a historia em sua totalidade; formulação de uma história-problema sem deixar de lado a defesa da história científica; relacionando o estudo com outras ciências …

             É importante ficar claro, que mesmo estando em seu apogeu cada uma das historiografias citadas, vale ressaltar que existiam historiadores que defendia suas concepções, um exemplo claro foi vivido por historiadores marxistas, que mesmo em plena divulgação dos ideais do grupo Annales, continuaram a considerar a história a partir de suas convicções, claro que sofrendo grandes repressões, mais sempre enfatizando os dogmas deixados por Marx.

           Mudanças ocorreram sempre nos núcleos das historiografias, visando sempre o aumento dos focos de estudos, baseados em revisões renovados de conceitos que poderiam ser aceitos talvez até os dias de hoje, mas que foram aos poucos transformados e, reformulando um novo núcleo que desencadeou de diversas fontes historiográficas e, formou o que conhecemos hoje como historiografia contemporânea. A historiografia contemporânea, nada mais é do que uma longa evolução dos estudos históricos, feito que se concretiza dia após dia .

       Do exposto, pode-se dizer que a história desempenhou diversos papéis ao longo do tempo, papéis estes, muitas vezes contestado pela sociedade, pois a história se apresenta como sendo um conjunto de interpretações e de versões que cada historiador faz com base nos exames que ele realiza nos documentos históricos, isso é posto em um cenário de um mundo cada vez mais complexo, cuja marca principal, talvez, seja a mudança. A realidade atual pode se tornar passado esquecido.

       Em tese pode-se dizer que a função principal da história perante a sociedade, talvez seja a de mostrar como as pessoas lidam com suas questões no decorrer do tempo. Mas pode-se dizer que o principal é, com certeza, analisar antigas experiências vividas por pessoas em um determinado tempo, chegando assim a um conceito que faz todos tomarem suas próprias decisões, escolher seus caminhos e o melhor, torna-se sujeitos da historia.

     Em síntese a função social que a história visa abordar nos dias atuais é com certeza formar cidadãos críticos que, por meio de analise de processos históricos, estabelecem as possíveis relações existentes entre o passado e o presente, e reflitam sob questões decisivas que se colocam na sociedade de um modo geral, influenciando de maneira direta na vida de cada ser humano.

 

Referencias:

ANASTACIA, Carla. Encontros com a historia/ Carla Anastácia,Vanilse Ribeiro- Curitiba: Positivo, 2006.

BLOCH, Marc. Apologia da Historia ou o oficio do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

MARX,ENGELS,1848.

SANTIAGO, Pedro. Por dentro da Historia/ Pedro Santiago;1. ed.- São Paulo: Escala Educacional, 2006.

 

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